The Crown, a história de uma família

janeiro 14, 2017


The Crown, uma das mais aclamadas séries de 2016 e vencedora do Golden Globe para Melhor Série Dramática, conta-nos a história do reinado mais longo do Reino Unido e da sua monarca, a rainha Elizabeth II. Antes mesmo das filmagens, muito especulava-se sobre a série e a sua produção, estimulando o interesse do público e dos media, afinal iria abordar a vida de personalidades históricas, mas também os escândalos e a vida social da casa real inglesa.

Logo no inicio constatamos que a figura principal da série, não é a rainha, mas sim a família real britânica, desnudando-a de toda a pompa envolvente, problemática como qualquer família normal, mas submissa ao peso da coroa. Somos confrontados com a debilidade e fragilidade do rei George IV (Jared Harris), na primeira cena da série, tendo como cenário uma casa de banho, nada luxuosa e um plano fechado de uma sanita ensanguentada (à la Hitchcock), antevendo a morte do rei.


O primeiro grande acontecimento retratado na série, é o casamento real da ainda princesa Elizabeth (Claire Foy), com o primo afastado, Filipe da Grécia e da Dinamarca (Matt Smith), focando-se na submissão do futuro marido à futura rainha, abdicando dos seus títulos e da sua família em nome do amor. Um homem humilhado por uma Inglaterra snob, contendo a sua raiva em prol da sua ambição e aspirações dentro da casa real

As melhores cenas do casal real são no Quénia, na viagem em que a princesa representou o pai, mostrando um casal feliz, cúmplice e apaixonado, acima de tudo liberto de todos os protocolos e olhares da corte. Mas a felicidade acaba com a previsível morte do pai, expondo uma Elizabeth humana e exposta pela dor perante os jornalistas. A cena quando desce as escadas da casa no Quénia (já como rainha) e um empregado local beija-lhe os pés é emblemática e com uma forte carga simbólica, personificando o "cair da ficha", para Elizabeth, com a percepção do seu novo papel. Uma sequência com uma actuação ímpar de Claire Foy (Wolf Hall ou The lady in the Van), mesmo com o silêncio da personagem, durante largos minutos, conseguiu transmitir tudo através do olhar e dos gestos.


A coroação em 1953, revela o excepcional trabalho de pesquisa da produção, indo ao detalhe e mostrando o jogo de bastidores, entre o Governo, a Coroa e a Igreja. E mais um acto de vassalagem do marido, perante a monarca, Matt Smith convence em cada cena no papel do marido submisso, o eterno Doctor Who, encarna na perfeição o olhar ambicioso do Duque de Edimburgo. Com a responsabilidade da coroa, Elizabeth nunca mais será a mesma, a sua vida já não a pertence, mas sim ao povo inglês, tornando-se na mulher mais poderosa da Europa. Afectando o seu casamento e a sua vida familiar. É interessante ver o percurso ao longo da primeira década de reinado, com um início de principiante e com medo de tomar decisões erradas, sendo manipulada por alguns, mas procurando ajuda, educando-se e moldando-se ao longo dos anos.


Mas se há alguém que brilhou nesta série foi, John Lithgow (Dexter ou 30 Rock), interpretando o enigmático Winston Churchill, primeiro-ministro inglês. Já vi algumas representações de Churchill no cinema ou na televisão, mas tão fiel não tenho memória, o actor americano conseguiu criar algo credível, imitando na perfeição os seus gestos, o andar, o sotaque e maneira de falar, sem cair na caricatura. A cena do quadro é uma aula de interpretação e de roteiro, quando Winston apercebe-se da sua degradação física, decidindo afastar-se da vida política. Saliento também o episódio do célebre nevoeiro que atingiu Londres em 1952, em que Churchill consegue reverter a tragédia a seu favor, saindo da situação como herói da nação.


A rebelde princesa Margarida, foi um dos destaques da trama, tornando-se protagonista em alguns momentos da série,  o seu amor proibido, digno dos mais românticos contos de fadas, foi um dos maiores acertos da narrativa. A actriz Vanessa Kirby (The Dresser) personificou uma mulher presa nas normas e protocolos da aristocracia britânica, lutando contra os princípios básicos e seculares da casa real em nome da felicidade, uma princesa à frente do seu tempo. O embate entre as duas irmãs, rendeu grandes cenas de ambas as actrizes, Elizabeth teve de escolher entre o coração e a sua obrigação como rainha, algo que a irmã nunca perdoou-lhe.


O ponto alto da série, é sem dúvida, o elenco de luxo e as suas interpretações. Entre eles saliento, a veterana actriz Eileen Atkins (Robin Hood ou The Hours) dando vida à rainha viúva Maria, avó paterna de Elizabeth, pouco aparece ao longo da série, mas em cada cena arrasa. Logo na sua primeira aparição, é de arrepiar a sua entrada no velório do filho, uma senhora de idade, débil, forrada de preto, seguindo em direcção à neta e curvando-se para reverencia-la. Alex Jennings (Victoria ou The Queen) encarna o célebre Eduardo VIII, Duque de Windsor, que abanou os alicerces da monarquia inglesa nos anos 30 ao abdicar da coroa, por amor a uma mulher divorciada. A cumplicidade com a sobrinha e conversa comovente no leite de morte da mãe, proporcionaram bons momentos na série, assim como toda a história da abdicação. A escolha de Victoria  Hamilton (Jericho ou Call the Midwife) não convenceu-me fisicamente, mas conseguiu imprimir o tom pessoal da inesquecível Rainha Mãe.

A série produzida pela Netflix, estreou em Outubro, com um orçamento de US$ 130 milhões (a mais cara de sempre), sendo composta por 10 episódios ao longo de 6 temporadas.Tendo como roteirista, o aclamado e premiado Peter Morgan (The Queen e The Last King of Scotland) e com direcção e produção de Stephen Daldry (The Reader ou The Hours).


Avaliação IMDb: 8.9
Avaliação do blog: 10

Paulo Faria 

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4 comentários

  1. Gostei muito da review Paulo. Acho que fiquei ainda mais convencida de que a tenho de ver. Aproveito ainda para dizer que gosto muito do design e dos tópicos que escolheste para este teu espaço :) Tenciono voltar cá mais vezes!

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    1. Tenho a certeza que vais gostar, Raquel. Obrigado pela visita e pelo elogio :) Conto com a tua visita :)

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  2. Tenho que arranjar um tempo para ver essa série. Vi o pilot e só pelo meu tempo que é limitado. U.U Mas pretendo terminar.

    www.primeiras-impressoes.com

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    1. A falta de tempo é sempre um problema para os fãs de séries. Mas tenho a certeza que vais gostar :) Obrigado pela visita, Mary :)

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