FESTIVAL RTP DA CANÇÃO 2017 | FINAL

março 09, 2017


Depois de duas semi-finais polémicas, já temos um representante luso para defender as cores nacionais em Kiev, na Eurovisão 2017. A final decorreu neste domingo no emblemático Coliseu dos Recreios em Lisboa, comemorando os 60 anos da RTP e os 51 anos do Festival da Canção, um dos programas mais antigos e simbólicos do canal público. Longe vão os tempos em que o festival parava o país, onde participavam os melhores cantores nacionais, como Simone de Oliveira, Paulo de Carvalho, Carlos Mendes, Fernando Tordo ou José Cid. Este ano a RTP tentou renascer o bolorento festival, conseguiu de certa forma, as audiências não foram más, com picos de liderança na final e as redes sociais explodiram com comentários positivos e negativos, mas pecou em muitos aspectos, nas canções deprimentes e insossas na primeira semi-final, no júri obsoleto vindo dos anos 70 e na duração das galas, com os eternos momentos de encher chouriços dos apresentadores.

Uma red carpet à la Globos de Ouro da SIC, mas sem conteúdo e glamour que meteu pena aos telespectadores de tão pobre, eu gosto muito da Filomena Cautela, mas não é a profissional certa para este tipo de coisas, a Vanessa Oliveira era mais indicada. Na Green Room a Filomena estava muito mais à vontade, brilhando como sempre com o seu humor ácido característico. A Catarina Furtado e a Sílvia Alberto, habituadas a este tipo de evento arrasaram como sempre, uma apresentação segura e competente. Apesar de não concordar com as votações do Júri Distrital, gostei muito do grafismo e do momento à la Eurovisão. Mas vamos ao que interessa, as canções.


1 - Jorge Benvinda | Gente Bestial



Composta pelo Nuno Figueiredo dos Virgem Suta, um pop, alegre e bem humorado, interpretado na perfeição na voz do Jorge Benvinda. Quando ouvi-a pela primeira vez, lembrou-me logo as músicas e o estilo do Carlos Paião, um dos grandes compositores portugueses, com um certo tempero de irreverência do António Variações, um dos génios da música portuguesa. Contudo, não resultaria na Eurovisão, tenho quase a certeza, é uma canção muito boa para o mercado interno, com um estilo marcadamente luso.

2 - Pedro Gonçalves | Don't Walk Away



A única canção festivaleira e eurovisiva deste festival, um pop actual e dançável, interpretada pelo jovem Pedro Gonçalves e composição do João Pedro Coimbra. Pela primeira vez, tínhamos algo diferente e contemporâneo, mas com um júri preconceitoso e datado, uma canção em inglês nunca irá ganhar. A RTP precisa de entender que o português não é uma língua importante na Europa e é de difícil compreensão para a maioria dos europeus, com o inglês poderíamos chegar a todos os países e não ficaríamos dependentes dos votos do único vizinho, a Espanha ou dos emigrantes. No entanto, melhoria alguns aspectos menos positivos, nomeadamente os dançarinos, esta performance precisa de mais dançarinos com uma boa coreografia e com outro tipo de roupa, inseria algum elemento cénico ou um bom grafismo, por fim melhoria algumas questões de afinação

3 - Lena d'Água | Nunca Me Fui Embora



Com a voz da grande Lena d'Água e composição de Pedro Silva Martins, é uma boa canção mas para concorrer a qualquer festival da década de 80. Mas saliento a entrega da cantora e fico feliz por ver uma das vozes do rock português no festival, mas ficaria ainda mais feliz se fosse uma música à altura deste monstro da música portuguesa.

4 - Salvador Sobral | Amar Pelos Dois



Sei que Portugal e uma parte da Europa apaixonou-se por esta canção, mas tenho de ser sincero, eu não gosto nada desta canção de embalar. É muito bem interpretada pelo Salvador Sobral, em termos vocais está impecável, mas não consigo gostar da performance esquizofrénica do cantor, com uma roupa de mendigo, parece um coitadinho no palco, é o que eu sinto ao ver o Salvador. Sem dúvida, um poema brilhantemente escrito pela Luísa Sobral (irmã do cantor), mas não sei o quanto esta canção resultará na Eurovisão, é uma incógnita

5 - Fernando Daniel | Poema a Dois



O meu pressentimento estava certo, quando afirmei que o Nuno Feist, não era o compositor ideal para o Fernando Daniel, basta ouvir os primeiro acordes em guitarra portuguesa para constatar isso. O Fernando precisava de um Diogo Piçarra ou de um Tiago Pais Dias, com um bom tema rock com algumas nuances pop, arrasaria na Eurovisão (tenho a certeza), mesmo que cantasse em português. O Feist é um grande compositor, mas tem o seu estilo próprio, arrasou por exemplo no festival de 2010 com o tema Alvorada na voz da Vanessa Silva, mas aqui errou por completo.

6 - Celina da Piedade | Primavera 



Um tema folk e tipicamente português, inspirado nas raízes musicais portuguesas, com uma forte presença em palco, a Celina da Piedade animou todos os presentes. Confesso que não sou fã deste tipo de música, mas sei separar as águas, sei que este tipo de música faz sucesso na Eurovisão, e no fundo representa a cultura do país. Mas mesmo assim, já tivemos músicas melhores do género no festival, como os Flor-de-Lis ou a Lúcia Moniz

7 - Deolinda Kinzimba | O Que Eu Vi Nos Meus Sonhos 



Mais uma grande voz desperdiçada neste festival, a Deolinda Kinzimba tinha capacidade vocal para uma grande balada à la Whitney Houston ou Mariah Carey, mas deram-lhe uma música boa, para uma novela dos anos 90 da TVI. Ouvindo esta baladinha, nunca diria que foi composta pela Rita Redshoes, da qual sempre fui fã, não percebo o que passou-se. 

8 - Viva La Diva | Nova Glória



Com um nome digno de espectáculo de transformismo (nada contra), os Viva La Diva enceraram o festival com uma música no mínimo confusa. A Kika Cardoso é uma excelente vocalista, não há duvidas, mas em determinado momento parece uma competição de quem tem a melhor voz, um sobrepondo o outro, uma anarquia musical. Apesar disso, a conjugação de vozes melhorou muito nesta final, mas ainda assim não consigo gostar da música, parece uma má tentativa de imitar os Il Volvo (aqui) em 2015. Composta por Nuno Gonçalves dos The Gift, poderia resultar na Eurovisão, mas com uma grande performance, algo em grande e épico, claro com uma melhor combinação das vozes. 

Agora a minha opinião sobre o vencedor, o Salvador Sobral, como já disse acima não gosto, mas apoio incondicionalmente a nossa canção, aliás foram poucos os momentos em que não apoiei Portugal (talvez só em 2011, com os Homens da Luta). Mas tenho sérias dúvidas se resultará na Eurovisão, eu posso dizer que já entendo um pouco do certame (aliás mais que a própria RTP haha), já vi mais de vinte edições. Nunca vi Portugal em 7º lugar na bolsa de apostas, estamos sempre nos últimos lugares, nem quando a Vânia Fernandes cantou. Só vejo comentários positivos e elogios à nossa canção nos fóruns internacionais, mas só no dia veremos a reacção dos europeus. 

Por fim, tenho de parabenizar a RTP pelos seus 60 anos de serviço público e de bons programas, eu cresci assistindo o canal público, até aos 10 anos era o único canal que tinha em minha casa. São muitos os programas que poderia numerar, como os Jogos Sem Fronteiras, o Festival da Canção, a Eurovisão, a Rua Sésamo, o Um, Dois, Três, a Visita da Cornélia, o Caderno Diário, o Herman Enciclopédia, os Riscos, os Principais, o Conta-me Como Foi, a Operação Triunfo, o The Voice, o Hugo, o Nós Os Ricos, o Nico D'Obra, a Mulher do Sr. Ministro, entre outros. Obrigado RTP pelos bons momentos e desejo acima de tudo inovação para o futuro!


Gostam do vencedor? Gostaram do festival?

Paulo Faria 

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